Forcei a vista quando percebi que o som ficava mais forte e – para minha surpresa – vi que era apenas um menino andando em meio à neve, não sabia o que ele procurava, apenas compreendia sua angustia, havia muita gente morrendo de fome e outros – para sobreviver – vinham praticando atos horríveis como canibalismo.
Aproximei-me dele e pergunte:
- Onde você mora menino?
- Avenida Peresburgo casa 89
Respondeu-me meio sem graça.
- Vamos até sua casa então.
- Não dá! – Falou alto e apressadamente.
Estranhei sua resposta e perguntei por que, ele abaixou a cabeça, contraiu a face - que logo se tornou vermelha - e começou a chorar.
- Comeram a minha família.
Disse com dificuldade enquanto soluçava e me mostrou o dedo anelar que não estava lá.
- Mas que horrível! – Eu disse – Garoto você está com fome.
Balançou a cabeça afirmando, então e falei:
- Vamos para minha casa, eu te garanto que lá sempre terá um prato a mais para que tem fome, mas antes quero lhe perguntar uma coisa.
- Pergunte!
Disse o garoto parecendo mais esperançoso.
- qual seu nome?
- Ivan Markovhis. – e logo depois disse timidamente – Senhor, posso lhe fazer uma pergunta?
- sim.
- qual o seu nome?
-Ygor Braknóvia
Terminada a conversa fomos a norte da avenida principal e a criança recomeçou a cantarolar aquela musica.
Quando chegamos a minha casa ele se espantou com meus filhos, pois, em meia a depressão, todos ainda estava gordinhos e corados.
Ivan passou um bom tempo conosco, e eu até comecei a sentir certo afeto pelo menino. Minha esposa costumava incitá-lo a comer algo toda vez que o via, e ele logo deixou de ser aquele menino magricela que eu encontrara em meio à neve.
Mas estes dias tranqüilos passaram rapidamente e um inverno arrebatador anuncia chegar. Lembro-me daquele dia como se fosse hoje, recordo de cada palavra dita e sempre me pergunto se teria sido diferente se Ivan não tivesse aberto a geladeira e visto toda aquela carne. Lembro que ele a abriu e perguntou:
- Senhor Igor, o senhor gosta de comer pessoas?
- Não.
- Então de onde vem toda essa carne?
Ele era um menino esperto e eu não tinha como lhe esconder a verdade, então disse:
- Desculpe-me Ivan, mas naquela noite não deveria tê-lo deixado escapar.
- O senhor vai me comer? – perguntou ele com os olhos arregalados, mas ele já sabia a resposta.
- Não tenho escolha.
- Porque o senhor tem que me matar?
- Você sabe demais.
- Por favor, não e mate! Eu não falo pra ninguém! Sou um menino bonzinho! - Ele implorou chorando.
- Não Ivan, o inverno já esta chegando e com mais você nó ficaremos sem nada para comer.
Ele enxugou ou olhos e disse corajosamente:
- Se é dessa forma que serei útil então que assim seja, senhor.
- De novo, desculpe-me Ivan.
Peguei uma grossa lasca de madeira que tinha atrás do sofá e o matei com apenas um golpe desferido na cabeça.
Enquanto estripava a criança – tirando-lhe órgão, restos de comida e coliformes fecais – uma grande dor de choro me veio a mente e como eu só sabia essa parte comecei a cantar: “Deus, você esqueceu de nó/ Por que esqueceu de nós/ Deus você esqueceu de nó/ Por que esqueceu de nós?”
Diogo de Castro
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